30/04/2024

O óleo do giz pastel

Chip Ganassi de Zanardi. CART, 1999.

Releitura do Papa Inocêncio X, de Velázquez, 1650.

Eu gosto muito de pintar com giz pastel oleoso. Não tenho tanto controle sobre o traço, porque a cera se desfaz do jeito que ela quer. Acho que o meu encantamento por essa técnica vem justamente dessa imprecisão. É como se tirassem das minhas costas o peso da forma do objeto. Giz pastel oleoso não obedece rascunho, pouco se importa com os seus planejamentos. Não tem nenhum compromisso com a sua ideia. Aliás, graças ao giz pastel oleoso eu tenho me acostumado a ter ideias durante o desenho, e começar a desenhar de mente completamente vazia. É como um teste de Rorschach, mas é o próprio pintor que faz a mancha.

Em suma, não adianta muito pensar no que vai fazer com o giz pastel antes de começar, porque ele sempre tem uma proposta diferente. 

No caso do desenho do carro do Zanardi, como o rascunho realmente pouco importava para o resultado final, imprimi uma foto do carro e copiei a forma usando um pedaço de papel carbono. Pintei por cima do estêncil. Veja como nem aparece, apesar de ser um traço escuro e forte. Pintei primeiro os vermelhos médios, depois os sombreados (azul, roxo escuro, lilás), as partes pretas, cinzas, e finalizei com brilhos de branco e tons mais claros. Comigo funciona essa ordem - médio, escuro, claro.

O branco é muito importante para essa técnica, porque ele aparece no mais alto grau de esplendor. Ele dá uniformidade, realça detalhes, brilhos, contornos, brinca com a luz.

Na releitura do papa de Velázquez, fiz um rascunho já colorido, usando o próprio giz. Onde havia sombreados, usei o marrom, preto; mas também havia as partes claras, amarelos, cinzas, esverdeados. No próprio rascunho eu fiz uma distribuição de cores, sempre tendo ao meu lado a obra-prima de Velázquez.

No final, decidi ver se era fato que óleo de cozinha dilui o giz pastel oleoso. Demora um pouco para, no papel, a cera se desfazer. Precisa tomar cuidado para espaços de cor não se invadirem nesse momento. A tendência é embolar tudo num imenso marrom miscigenado. Ou, com técnica e paciência, o giz se transforma em uma tinta encorpada, um tanto fosca, com excelente manuseabilidade e extensão - e fiquei imaginando o motivo de não ter feito uma arte assim antes.

O óleo de cozinha funcionou muito bem, não deixa cheiro forte nem exige muita limpeza. A secagem também foi rápida, e ainda consegui usar o giz "puro" para dar os últimos retoques.

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